Como não ser governado? Como uma sociedade exclui parte de si mesma? Que limites e margens sociais são determinadas por essa mesma sociedade? Lançadas por Foucault nas aulas no Collège de France (1976-1979), as questões iniciam seus trabalhos sobre governos e governamentalidade, pressupostos que nos servirão como base para discutirmos o incômodo, em nossas problematizações, sobre o papel de uma guerra nas ações biopolíticas, mais especificamente uma guerra entre brasileiros. O fato em questão aconteceu entre os anos de 1912 e 1916 entre os Estados de Santa Catarina e do Paraná e teve por denominação: Guerra do Contestado; morreram entre civis e militares aproximadamente 20.000 pessoas que motivadas por razões no plano da visibilidade pela entrada de empresas estrangeiras em terras ocupadas por posseiros, por demarcações fraudulentas, pela defesa da ordem e do patrimônio, fizeram desse conflito o maior embate civil armado do último século no Brasil. As ações dos dois governos apoiados pela I República Brasileira ecoam até hoje nos antigos locais de conflito, como também nas populações dos Estados envolvidos e, começam por uma série de estudos de sociólogos, antropólogos, historiadores e linguistas a mostrar marcas de biopolítica, com controle social dessa população que dão traços identitários para estes sujeitos. Assim a governamentalidade, entendida a partir de Foucault como o conjunto de práticas que agem tanto socialmente, quanto nos indivíduos (população) e, que mesmo que digamos não, nos envolvem moldando atitudes, comportamentos e identidades, pauta nossas hipóteses iniciais de que na invisibilidade o Estado Moderno em processos que Foucault chamou de biopolíticos determinou o “verdadeiro de uma época”, em práticas de como governar e de como assujeitar, a partir de discursos sobre a “limpeza de raças” (eugenia) e de progresso. Talvez esse modus operandi tenha sido uma das razões ou não que na invisibilidade das práticas biopolíticas levaram milhares aos campos de batalha. Então nos interessa observar as condições de emergência desse acontecimento factual e nessa observação tentar descortinar o dispositivo que produziu os sujeitos “caboclos”; pensando que talvez suas condições de existência possibilitaram discursos de racismo de Estado e política para o bem da maioria. Como materialidade acreditamos que imagens da época representadas em fotografias, que hoje são utilizadas como uma linguagem rica para a produção fílmica, especificamente utilizada em dois documentários nacionais “Meninos de Contestado” e “Olhar Contestado”, ambos de 2012, nos trarão possibilidades de pensar essa agência governamental e fazer falar essa sociedade moldada por disciplinas e relações complexas de poder de um Estado, ainda hoje, centralizado nas formas jurídicas e burocráticas do poder soberano, mas com vistas ao progresso que a biopolítica impõe aos corpos populacionais.

Vigência: 2013-2017

Coordenador(a): Valéria Cristina de Oliveira – ORIENTADORA: Profa. Dra. Ismara eliane Vidal de Souza Tasso