Para a fase atual de doutoramento, nos propomos a compreender o investimento discursivo cinematográfico sobre o corpo anormal na contemporaneidade. O quadro que compõe o corpus de pesquisa restringe-se a seis produções fílmicas: quatro documentários exibidos no Festival de Filmes sobre a deficiência “Assim Vivemos” e dois longa-metragem – o filme brasileiro “Colegas” (2012) e o filme francês “Os Intocáveis” (Intouchables, 2012), ambos ganhadores de vários prêmios em 2012 e 2013. Sob os fundamentos teórico-metodológicos da Análise de Discurso de linha francesa e seus desdobramentos no Brasil, vislumbramos as materialidades cinematográficas como espessuras fílmicas que se inscrevem em regimes de verdade, em lugares de enunciação que são, para nossa perspectiva de estudo, como pontos de escuta para problematizações acerca da arquitetura discursiva cinematográfica, que inscreve efeitos de poder sobre o político e o social, a partir de um feixe de relações entre saber (sobre o corpo anormal) e verdade. Nossos tateamentos teórico-analíticos iniciais vêm apontando para o dispositivo da (in)visibilidade da privacidade como eixo norteador de uma arquitetura discursiva historicamente heterogênea, que coloca em funcionamento formas de (des)aparecimento do corpo anormal no político e no social, por meio de tecnologias ora repressivas, ora disciplinares, ora reguladoras. A tese que será defendida, pode ser resumida na seguinte asseveração: as estratégias e os mecanismos utilizados no tecido discursivo cinematográfico inscrevem-se em espaços de significação, cujo dispositivo da (in)visibilidade do privado produz um regime da enunciação do “corpo transparente”. A questão que norteará nosso trabalho de análise e de interpretação se define da seguinte maneira: de que modo a (in)visibilidade do privado, enquanto dispositivo que organiza o discurso cinematográfico sobre o corpo anormal na contemporaneidade, legitima e/ou desconstrói dimensões políticas circunscritas às demandas do social? Dessa forma, partimos da constatação preliminar de que na produção dos regimes enunciativos cinematográficos o sujeito é perpassado por jogos enunciativos de verdade que funcionam como uma ascese, isto é, um exercício de si sobre si, em que ele pode se transformar e aceder a um certo modo de vida. É no exercício de dizer a verdade que se auxilia os governados para que eles mesmos encontrem sua verdade, de modo que saibam conciliar suas obrigações sociais e políticas (poder sobre os outros) com a construção de si, enquanto sujeito de seus atos (domínio de si). Esse imperativo ascético, que se exerce no/pelo discurso cinematográfico é responsável, então, pelo funcionamento da biopolítica, exercício do poder, que tem como objetivo intervir, por meio de mecanismos globais, na vida da coletividade / população, para que se obtenham estados globais de equilíbrio, de regularidade. O discurso cinematográfico, nesta perspectiva, age, pois, por meio de uma existência material heterogênea, que conduz o espectador para um regime de olhar corpos anormais, articulada pelo dizível e pelo visível. Como pontos nodais de uma rede discursiva, os sentidos produzidos pelas sequências fílmicas flutuam no entremeio de ordens dispersas e heterogêneas que comungam dos espaços da arte e da política; do privado e do público; da experiência de si e da ação social.

Vigência: 2012-2016

Coordenador(a): Érica Danielle Silva – Orientadora: Profa. Dra. Ismara Eliane Vidal de Souza Tasso