A partir do instante em que um determinado enunciado emerge por meio de determinada superfície, em determinada época e lugar, e este enunciado estabelece relações com outros enunciados, seja dialogando, excluindo-se, atravessando ou completando um ao outro, repetindo-se, transformando-se ou sendo reativado, tem-se uma trama, a que chamamos discursiva. Partindo desse olhar discursivo, esta pesquisa busca analisar enunciados em sua irrupção histórica, na estreiteza de seu acontecimento, numa tentativa de compreender qual estratégia linguístico-discursiva contribuiu para o processo de formação dos discursos que tentaram forjar uma determinada identidade nacional no período da Ditadura Militar brasileira. Escolhemos esse período histórico por entendermos que, nele, uma série de enunciados foi produzida com o propósito de fabricar sujeitos mais ?dóceis e úteis? à sociedade que se tentava impor. Escolhemos o período pós Ato Institucional nº 5, por entendermos que esse Ato foi um divisor de águas no modo como o governo conduziu a Nação, principalmente porque o AI-5 conferiu ao presidente da República plenos poderes para decidir os rumos do país: fechar o Congresso, cassar mandatos, intervir nos Estados e Municípios, bem como suspender direitos políticos e censurar qualquer meio de manifestação que ele julgasse contrária ao seu governo (imprensa, televisão, rádio, teatro, passeatas, música, cinema). Por tudo isso, era necessário ao Governo criar uma trama discursiva que se encarregasse de difundir enunciados estimulando o espírito ufanista do brasileiro, para de alguma forma encobrir o que estava sendo feito nos escombros da ditadura. Esta pesquisa fundamenta-se na Análise de Discurso desenvolvida no Brasil a partir das postulações feitas por Michel Foucault. Dois aspectos da teoria foucaultiana serão particularmente mobilizados: a) a complexa relação que esse filósofo estabelece entre saber poder e verdade, porque consideramos que os enunciados procuravam fabricar determinadas verdades em torno da nova realidade brasileira; b) as estratégias biopolíticas adotadas pelo Estado, porque acreditamos que os discursos que circularam naquela época tinham não apenas a finalidade de disciplinar o indivíduo, mas também regular a população como um todo. Como corpus de análise, optamos por dois focos distintos, embora ambos explorem a mesma temática relacionada à busca de uma identidade nacional ufanista: propagandas oficiais e músicas/hinos divulgados naquela época.

Vigência: 2013-2014

Coordenador(a): Profa. Dra. Maria de Lourdes Faria dos Santos Paniago