A língua se caracteriza como referência de nacionalidade e, por isso, carrega consigo uma bagagem histórica que, no Brasil, não foi pacífica, ao contrário, oficializou-se por imposições políticas obedecendo à política colonialista predominante na época. Nesse sentido, sendo a cultura efetivada e mantida por práticas culturais – língua, valores, crenças, hábitos, estilos, costumes – as quais se misturam com valores e decisões políticos, é possível reconhecer que os indígenas tiveram sua autenticidade abalada em função do regime colonialista marcado pela exploração. Diante disso, é sólido afirmar que as tendências políticas são agentes ativos na construção da cultura de uma nação, logo, as ações políticas governam também o olhar sobre o outro. No caso da cultura nacional, ela esteve à disposição dos regimes políticos, de forma que não é difícil reconhecer as diferenças entre as concepções que definem o indígena contemporâneo e o indígena de outrora. Entretanto, ainda existe uma cultura predominante que configura os brasileiros e que assim os identifica. Portanto, se há uma cultura (modelo) que predomina, há uma hierarquia cultural. Nessa perspectiva, a cidadania consiste em um dispositivo jurídico que ameniza as diferenças entre os sujeitos ao possibilitar oportunidades no âmbito educacional. A partir disso, a discussão deste trabalho se desenvolve em torno do “Vestibular dos Povos Indígenas no Paraná” que, conforme Lei Estadual n° 13.134/2001, modificada pela Lei Estadual n° 14.995 de 2006, permite aos índios integrantes das comunidades indígenas disputarem vagas suplementares nas universidades estaduais e federal do Estado do Paraná. Com o intuito de refletir sobre a integração dos indígenas no espaço universitário, temos como objetivo compreender e apontar as contradições empreendidas – no âmbito político, social e linguístico – no processo de representação – considerando as noções de história (discursiva) e memória –CIDADANIA, INCLUSÃO E BIOPOLÍTICA: A IDENTIDADE LINGUÍSTICA EM CONTRADIÇÃO NO PROCESSO SELETIVO VESTIBULAR DOS POVOS INDÍGENAS NO PARANÁ e de constituição identitária linguística e nacional para a formação cidadã do sujeito indígena no espaço universitário inscritas nas redações do vestibular para os indígenas. Dessa forma, perguntamo-nos quais contradições no campo linguístico, circunscrevem o indígena como diferente e incapaz distanciando-o de sua condição de cidadão. Para tanto, servimo-nos do arquivo composto pelas redações da décima edição do Vestibular dos Povos Indígenas no Paraná, realizado no ano de 2010. As reflexões teórico-metodológicas serão subsidiadas pela História, Estudos Culturais e Análise do Discurso de linha francesa e de seus desdobramentos no Brasil. Os resultados alcançados demonstram que a inclusão do indígena na sociedade não indígena se efetiva no processo de reconhecimento desse sujeito como cidadão. O domínio da língua é o primeiro passo para que isso aconteça. Trata-se, portanto, de assumir uma língua, isto é, assumir uma identidade nacional. Identidade esta cujas normas admitem padrões diferentes daqueles contemplados pela conduta cultural e linguística indígenas. A inclusão está pautada sob procedimentos de normalização que configuram o sujeito indígena nos parâmetros não indígena. Diante disso, inclusão e preservação estão na contramão, dado que a inclusão se efetiva e se sustenta pelo respeito na sua plenitude. Todavia, a cultura nacional, construída sob valores colonialistas, contempla o respeito no sentido de tolerância. Assim, as relações entre indígenas e não indígenas ainda são delicadas e conflituosas, uma vez que se consolidam sob clima de tensão e contradição.

Vigência: 2010-2012

Coordenador(a): Raquel Fregadolli Cerqueira Reis Gonçalves – Orientadora: Profa. Dra. Ismara Eliane Vidal de Souza Tasso