De maneira geral, a temática da acessibilidade cultural constitui-se em uma preocupação incomum no campo das Ciências da Linguagem, sobretudo quando abordada em sua relação com a instituição museológica. No Brasil, desde o fim do século passado, os estudos em Análise de Discurso possibilitaram alçar as reflexões sobre a linguagem na relação direta que esta mantém com suas condições históricas de produção e com os processos nos quais o homem, sujeito afetado pelo simbólico, constitui-se como sujeito. Ao se considerar as produções culturais alocadas em um museu como materialidades linguístico-discursivas da ordem do artístico, a pesquisa tematiza a reprodutibilidade da obra de arte e sobretudo, de seu ambiente material de exposição, o museu, através de procedimentos técnicos, tecnológicos (como a fotografia, a digitalização e a recodificação) e da tecnologia da governamentalidade, para focalizar as mudanças nas relações de saber-poder entremeadas entre sujeito espectador, obra de arte e instituição cultural, uma vez que o espaço do museu, nesse caso, pode ser apreendido como um sítio de significações que acampa para além da ordem do artístico. Em vista disso, lança a seguinte problematização: diante dessa modificação material, o museu virtual constitui-se em um espaço heterotópico outro que específica e diferencia um enunciado de outro, no que se refere ao status discursivo ao qual pertencem os enunciados que constituem os regimes de visibilidade do artístico em circulação no espaço virtual? Tais relações entre saber e poder tecnológicos e de governamentalidade implicam a consideração de que o dispositivo de fazer viver a acessibilidade à arte e à cultura nacional deixa morrer o discurso político em imagem no espaço heterotópico do museu? Tal encaminhamento consolida o desafio de ler diferentes materialidades significantes ou, mais precisamente, de ler discursivamente, na urdidura heterotópica do artístico, as tramas vetoriais do político entretecido nas demandas do social. Sob tal diretiva, a pesquisa focaliza uma série enunciativa que compõe parte material do Portal Projeto Portinari e Museu Casa de Portinari e mobiliza um gesto de leitura, com o objetivo de compreender o modo como se constituem as modalidades enunciativas dessas arquiteturas hipermidiáticas. Para tanto, sob uma vertente da Análise de Discurso, esta investigação conflui na relação (in)tensa entre os postulados de Michel Pêcheux e de Michel Foucault em suas produtivas aproximações, delimitações distanciamentos e desdobramentos, assim como em especulações teóricas gestadas a partir da leitura discursiva de formulações advindas de campos de saberes que tematizam a questão abordada. Nesse empreendimento, ao vislumbrar a relação amalgamada entre a linguagem, a arte, a cultura e o político, confirmou-se a tese de que, ao passar pelos processos sociotécnico-semióticos que permitem sua (re)materialização no espaço virtual, a materialidade da arte e de seu espaço de visitação passam a vigorar em outra ordem discursiva, não só na da instituição museológica, mas também na da política de acessibilidade cultural. Como resultado, a pesquisa revelou que a materialidade do artístico, nas coerções sofridas pela prática de leitura para a qual é gestada, é tratada como a condição de possibilidade de se acolher os efeitos de uma nova tecnologia de funcionamento da governamentalidade no que tange a uma política de acessibilidade cultural no espaço virtual, deixando morrer os efeitos do político da arte, em sua forma concreta no mundo que responde pelo caráter social da arte portinariana, para fazer viver o político na arte, em sua forma digital que responde pelo caráter inclusivo da arte reproduzida.

Vigência: 2012-2014

Coordenador(a): Jefferson Gustavo dos Santos Campos – Orientadora: Profa. Dra. Ismara Eliane Vidal de Souza Tasso