mikhail-bakhtinAs noções que partem da constatação de que a linguagem é caracteristicamente dialógica e, por corolário, o discurso dos sujeitos é, por definição, heterogêneo assentadas nos estudos do filósofo russo Mikhail Bakhtin, somam-se ao dispositivo de interpretação dos discursos que fundamenta as pesquisas no interior do GEDUEM. Para esse filósofo, o signo linguístico é essencialmente ideológico.

Segundo Bakhtin (1992), um produto só passa a ser revestido de uma ideologia quando, além de fazer parte de uma realidade, natural ou social, espelha também outra exterior. A arbitrariedade do signo lingüístico, conforme pontuou Saussure, não significa que o signo seja uma entidade autônoma, situado fora da realidade social das pessoas. Pelo contrário, o significante e o significado atribuídos a cada signo nascem do comum acordo entre os membros da comunidade, da interação entre indivíduos historicamente determinados.

Sobre o aspecto interacional do signo lingüístico, Bakhtin nos tem a dizer que os signos só se revestem de ideologia através do processo de interação social. Por intermédio desse processo os homens se constituem como sujeitos no mundo e se distinguem dos outros animais pela consciência. Porém, o indivíduo só se torna sujeito consciente a partir do momento em que sua consciência se impregna do conteúdo ideológico, fato que ocorre única e exclusivamente no processo de interação social. Sendo assim, toda e qualquer significação ideológica que um signo pode ter é fruto da relação social dos homens e não da abstração individual de cada um.
Na visada bakhtiniana, um indivíduo só passa a compreender o mundo, a significar e a classificar a realidade que o rodeia, a partir do momento em que sua consciência individual esteja repleta de ideologia. Não é a ideologia que deriva da consciência, mas a consciência individual que, em interação com uma outra consciência individual, adquire forma e existência através da realidade. Em vista disso, é por meio do material verbal que ocorrem as transformações sociais, uma vez que a psicologia do corpo social, que liga a estrutura sócio-política (infra-estrutura) à ideologia (superestrutura), é materializada na e pela interação verbal, sem a qual se reduziria a um conceito puramente metafísico. Portanto, a psicologia do corpo social não se encontra interiorizada, mas exteriorizada nos atos de fala, no gesto, enfim, nos diversos meios de comunicação semióticos.