michel-pecheux pbOs princípios teóricos e procedimentos de análise foram formulados como método de interpretação dos discursos formulado por Michel Pêcheux, nos anos 1960, na França. Objetivando fazer frente a uma postura hermenêutica sobre a leitura e a uma concepção de linguagem centrada no sujeito como fonte do seu discurso, a Análise do Discurso relativiza o papel do autor, do texto e do leitor, uma vez que não se trata de encontrar as intenções dos sujeitos produtores de discurso, tampouco se concebe o texto como depositário de sentidos que precisam ser encontrados pelos leitores, por meio de um gesto de leitura que não consideraria as determinações histórico-sociais, menos ainda se concebe o sujeito-leitor como aquele que atribui sentidos, lê a partir de sua subjetividade, experiência, etc, ignorando a materialidade do texto e a relação interlocutiva.

Esse campo de conhecimento requer do analista um modo de selecionar e de explicitar seu objeto diferente de outros campos de conhecimentos da chamada Lingüística Moderna. A prática da Análise do Discurso analisa, a partir das séries enunciativas recortadas de um determinado “arquivo”, os discursos como acontecimentos discursivos, buscando circunscrever e compreender os efeitos do interdiscurso – a constituição do dizer – sobre o intradiscurso – a formulação do dizer. Assim, o trabalho do analista do discurso consiste em compreender outros sentidos que estão à margem do texto, isto é, “escutar” e fazer “falar” a relação entre o dito e o não dito.

A Análise do Discurso empreendida por Michel Pêcheux, sob o signo da trilogia Marx-Saussure-Freud, não objetiva descobrir o sentido oculto, mas escutar e deixar falar o já-dito, no seu incessante trabalho de retornar e de se inscrever no discurso do sujeito, a relação tensa entre o mesmo e o “outro”/”Outro” e a possibilidade de que o discurso poderia ser outro, fundado no deslocamento. Como relembra Maldidier (2003), a aventura do discurso que Michel Pêcheux realiza é uma “aventura teórica do discurso”, que toca três regiões: a da língua, a da ideologia e a do inconsciente.

Esse dispositivo de interpretação dos processos discursivos requer que o pesquisador não credite ao sujeito falante o poder a ele dado por uma epistemologia subjetivista, centrada no indivíduo. O materialismo histórico de um lado e a psicanálise de outro promoveram o descentramento do sujeito. O sujeito falante pode sofrer determinações vindas de um “outro” (uma formação discursiva) ou de um “Outro” (o inconsciente).

Outro dado fundamental tem a ver com a metodologia empregada. Como ensina Michel Pêcheux (1990, p.79), “é impossível analisar um discurso como um texto, isto é, como uma seqüência lingüística fechada sobre si mesma, mas que é necessário referi-lo ao conjunto de discursos possíveis”. Uma tarefa então da Análise do Discurso seria descrever as possibilidades do dizer que foram “silenciadas” ou não ditas, mas que constituem o próprio dizer, trabalhando o discurso em sua opacidade e tirando o sentido e o sujeito do lugar do repetível (do já-dito), pois o discurso se apresenta no intermeio linguagem-ideologia. Vale lembrar que não se trata de quantidade de textos analisada, mas do recorte que o analista faz do conjunto de enunciados efetivamente ditos, e de, a partir dessa série enunciativa, fazer referência às formações ideológicas estruturantes do discurso, às formações discursivas determinantes dos efeitos de sentido produzidos e à inscrição da memória do dizer (interdiscurso) na seqüência analisada.