michel-foucaultTeórico importante que orienta as pesquisas a serem realizadas pelo GEDUEM é o filósofo francês Michel Foucault, conhecido por dedicar-se ao estudo da relação entre discurso e história, da constituição do saber e do exercício do poder na sociedade ocidental. As análises realizadas por Michel Foucault também se distanciam da idéia de descoberta de um sentido supostamente oculto. Inclusive, em suas muitas entrevistas Foucault dizia que desconfiava do sentido. No prefácio de As palavras e as cosias, a partir de uma enciclopédia chinesa citada por Borges, Foucault lança uma pergunta que resume toda a inquietação de sua experiência como um “arqueólogo” das ciências humanas produzidas pela cultura ocidental: “Em que “tábua”, segundo qual espaço de identidades, de similitudes, de analogias, adquirimos o hábito de distribuir tantas coisas diferentes e parecidas?” (FOUCAULT, 2000, p.XV).

Sobre a relação discurso e história, as análises de Foucault posicionam-se contrariamente ao método adotado pelo historiador positivista, que consistia em traçar as linhas de continuidade do desenvolvimento de um pensamento numa lógica evolutiva. A abordagem de Foucault implica a renúncia das verdades preestabelecidas e da crença na origem dos sentidos. Assim, quando se propõe a estudar os discursos que formam o saber clínico, o que ele investiga não é a ordem cronológica do seu desenvolvimento, mas a arqueologia do seu significado, as descontinuidades das suas estruturas sociais. O saber clínico, desse modo, é examinado a partir dos discursos que compõem a sua ordem e das modulações de sentido ocorrentes em cada período histórico, método esse que possibilita verificar as suas transformações, as condições da sua existência e as causas do seu declínio. A série enunciativa que Foucault recorta para analisar esse saber aponta a existência daquilo que ele irá chamar de arquivo, isto é, o regime de enunciabilidade, formação e transformação do que foi e pode ser dito ou escrito pelos homens, incluindo as manifestações artísticas e as formas heterogêneas de materialidade discursiva. É sobre o arquivo que uma análise de orientação arqueológica deve incidir.

Em face dessa perspectiva, a relação entre saber/discurso/história é analisada com base naquilo que Foucault (1972a) denomina prática discursiva, conceito que passa a utilizar em substituição à noção de epistéme. Concebido como prática discursiva, o discurso torna-se o conceito central da investigação arqueológica empreendida pelo filósofo, que o localiza entre a estrutura e o acontecimento, uma vez que contém as regras da língua e aquilo que foi efetivamente dito.

Outro aspecto a ser considerado na análise das séries enunciativas refere-se à tarefa do pesquisador, que deve contemplar a descrição e a interpretação da função enunciativa exercida nos enunciados recortados do arquivo. Em outros termos, o analista precisa dar a conhecer as regras que constituem os discursos. Considerando-se que a abordagem arqueológica dos saberes busca trazer à luz e compreender as relações que articulam os enunciados, isto é, o sistema de repartição que mantém a coexistência de enunciados heterogêneos, não é seu objetivo compreender os discursos, tomando-os como conjuntos de signos. Para Foucault (1972a), o enunciado não é uma unidade passível de ser definida com base em elementos do mesmo gênero da frase, da proposição ou do ato de fala, pois o que faz dessas unidades um enunciado é o exercício da função enunciativa, que atravessa um domínio de estruturas e de unidades possíveis, fazendo-as irromper, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço. O princípio da função enunciativa possibilita ao analista circunscrever as modalidades enunciativas, dado o fato de o enunciado ser produzido por um sujeito, em um lugar institucional, bem como as regras sócio-históricas que definem as condições de emergência dos discursos.