Pesquisadora do GEDUEM agenda defesa pública de tese em março

Valéria Cristina de Oliveira

O GEDUEM convida todos a prestigiarem a defesa pública, em nível de doutorado, da pesquisadora Valéria Cristina de Oliveira. Sua tese é intitulada “Sobre caboclos e (in)visibilidades no Contestado: pacto de segurança e biopolítica nas imagens-frame do documentário brasileiro de celebração centenária”. A defesa pública da tese ocorrerá no dia 29 de março de 2017, às 14h00, no Bloco H12 na Universidade Estadual de Maringá.

OLIVEIRA, Valéria Cristina de Sobre caboclos e (in)visibilidades no Contestado: pacto de segurança e biopolítica nas imagens-frame do documentário brasileiro de celebração centenária.  2017. 227f. Tese (Doutorado em Letras) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2017.

RESUMO

 A tese que aqui se apresenta tem por alicerce as teorias foucaultianas que integram a Análise do Discurso de linha francesa, em suas discussões e desdobramentos brasileiros, que primam por olhar o “sujeito e seu instante”, instância de problematização do sujeito e do discurso. Esta pesquisa compreende que a biopolítica, lentamente principiada entre o limiar do século XIX ainda sob a ordem monárquica no Brasil e os primórdios republicanos do século XX, foi o procedimento de controle instaurado, na visibilidade das ações Estatais, para agir sobre o movimento civil, denominado “Guerra do Contestado”. Nesse sentido, a prática política e econômica do biopoder, estendida do passado até nossos dias, deu-se como estratégia da governamentalidade para pôr fim ao conflito, inscrevendo o sujeito caboclo, discursivizado como rebelde do Contestado, no esquecimento e na reiteração da exclusão em práticas discursivas, as quais são investigadas na edição das fotografias tornadas efêmeras em documentários. Materialidades estas que surgem como prática biopolítica de memória/rememoração/comemoração dos centenários e são convertidas, nesta investigação, em corpus de pesquisa. Tais condições de possibilidades deram lugar ao rompimento do dispositivo “pacto de segurança” e instituíram aos caboclos do Contestado marginalização e apagamento social. Nesses moldes, o descaso e o abandono geraram a emergência dos discursos da rememoração; sentidos que, na comemoração do centenário, são ressignificados e retomados em enunciados da contemporaneidade. Desse cenário, interessaram-nos, excepcionalmente, as condições de emergência discursivas desveladas pelas comemorações do centenário do evento; as condições de existência nas reivindicações enunciativas sobre o centenário em celebração; e as condições de possibilidade da prática iconográfica – organizada na animação fotográficacolocarem em funcionamento os campos de estabilização e de utilização que garantem a unidade e a identidade enunciativa em documentários. Assim, compõem o corpus de análise: duas produções documentais videográficas, que empregam técnicas de movimentação em fotografias, cujo tema é o acontecimento factual e discursivo Guerra do Contestado − Meninos do Contestado (2012) e Olhar Contestado: desvendando códigos de um conflito (2012). Ambos os documentários investem em um conjunto discursivo essencialmente baseado na história da Guerra do Contestado, conferindo destaque à materialidade iconográfica, a qual, sob tal textura, desestabiliza os regimes de visibilidade e de enunciação. Assim, o objeto de pesquisa evoca memória, poder, verdade e biopolítica em relações com os saberes técnicos de edição das materialidades fotográficas e com os saberes discursivos. Tal reunião de saberes evidencia discursos de poder legitimados, em lugar de outros, o que nos leva a problematizar: as condições de possibilidade dos regimes de visibilidade e de visualidade, reunidas nas imagens-frame, produzem ou não relações de remanência enunciativa que deslocam e dispersam os modos de ver e de dizer a população minoritária, dita cabocla, em documentários sobre o centenário da Guerra do Contestado? Diante disso, nosso objetivo é investigar como e por que a animação fotográfica, ao convocar a rememoração da “Guerra do Contestado” pela celebração de seu centenário, presentifica esse acontecimento histórico e discursivo em documentário audiovisual, atribuindo-lhe “nova” textura, e, por esse modelo de escritura, dá visibilidade aos caboclos e aos regimes de governamentalidade pelas tecnologias do biopoder e da biopolítica.  Como resultados a pesquisa revelou, nessa meada discursiva, o conjunto de saberes técnicos de visibilidade e de enunciação das produções videográficas, os quais mostram traços de uma comunidade indesejada e abandonada e de uma memória, que se quer presentificar. As imagens-frame assinalam, discursivamente, a existência de um período de rompimento do “pacto de segurança” apontando um Estado que exclui e mata. Os gestos de leitura empreendidos pela analítica desvelaram, ainda, nessas materialidades imagéticas discursivas, o modo como se estabelece a reinscrição material dos enunciados, mantendo campos de estabilização de sentidos sobre os sujeitos caboclos, sobretudo, demonstraram como essas animações se inscrevem em regimes outros de olhar e de dizer sobre a população cabocla, cuja reinscrição não muda os enunciados acerca do Contestado, porém os colocam em jogo de relações com outros dizeres, movimentando e constituindo práticas atuais. Em tempo, a pesquisa revela que, inscritas em outros modos, como os fazeres tecnológicos dos documentários que as animam, as imagens-frame fazem ver o funcionamento dos discursos imagéticos e não imagéticos e notabilizam o lugar híbrido de existência desses enunciados iconográficos e a sustentação de saberes e de ordens institucionais as quais obedecem.

Palavras-chave: Fotografia/Imagem-frame. Biopolítica. Pacto de Segurança. Caboclo. Documentário. Guerra do Contestado.

 

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Luana Vitoriano

Doutoranda em Letras, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), tem Estudos Linguísticos por área de concentração e Estudos do Texto e do Discurso por linha de pesquisa. Mestra em Letras, na área de Linguística (2016) e graduada em Letras (2013) pela UEM. Assume por eixos temáticos de pesquisa o discurso, a língua, a proficiência em línguas, procedimentos biopolíticos de inclusão e exclusão, políticas linguísticas e afirmativas. É pesquisadora do Grupo de Estudos em Análise do Discurso da Universidade Estadual de Maringá (GEDUEM/CNPq).

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